É hora de nós, deficientes, sermos protagonistas e ídolos das pessoas que não têm deficiência

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Anderson Dias foi campeão paralímpico no futebol de cinco em Atenas, nos Jogos de 2004. Foto: Urece

Tricampeão mundial de futebol na Grécia (2000), Espanha (2002) e Argentina (2004), o atleta paralímpico Anderson Dias coleciona ainda o ouro na modalidade futebol de cinco das Paralímpiadas de Atenas, também em 2004.

Hoje, o medalhista é presidente da Urece Esporte e Cultura, organização que leva atividades físicas e culturais para pessoas com deficiência visual desde 2005. A instituição é uma das 81 que formam a Rede Esporte pela Mudança Social (REMS), fundada com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Em entrevista exclusiva à agência da ONU no Brasil, Anderson conversou sobre as expectativas para as Paralimpíadas de 2016 e também sobre o papel do esporte na inclusão social de indivíduos com deficiência.

Como começou sua trajetória como atleta?

Desde criança, eu tinha o sonho de ser atleta. Queria jogar bola no Flamengo, meu time. Quando fui alfabetizado, no Bejamin Constant, descobri que cego também praticava esporte. A primeira modalidade que eu fiz para competição foi o atletismo, mas onde desabrochei mesmo e tive participação, foi na seleção de futebol, que era realmente meu sonho. Depois de dois anos, eu já estava na seleção jogando futebol.

Você acredita no esporte como fator de inclusão social?

Eu vejo o esporte como o maior veículo de integração do deficiente à sociedade porque o esporte dá a independência. Além de dar a independêcia, um fator que vejo como preponderante é o deficiente ter contato com o outro (deficiente) e ver o que o outro faz. Se ele tem a mesma deficiência que eu, e ele faz, eu também posso fazer.

Por exemplo, uma das coisas que acontecia comigo: meu irmão com uma certa idade, 13 anos, podia sair de casa sozinho, ir para outro município, e eu não podia porque eu era cego.

Mas quando eu cheguei no Benjamin Constant, eu briguei: “Calma aí, mãe, os meninos têm 13 e 14 anos e saem do Benjamin Constant sozinhos e vão para casa, e por que eu não posso ir?”. “Porque você é cego”. “Nada a ver! Eles não enxergam, eu também não enxergo.”

Talvez se eu não tivesse conhecimento dos deficientes, eu ia aceitar o argumento da minha mãe, mas eu falei: “Não, se eles fazem eu também posso fazer”. Então, eu vejo realmente o esporte, na minha opinião, como o maior veículo de integração para os deficientes visuais.

A Urece surgiu com esse intuito de integração dos deficientes na sociedade?

A Urece é um associação sem fins lucrativos, fundada em 2005, no auge da minha carreira de futebol, quando já fazia tempo que eu estava na seleção. Mas, naquele momento, tive um olhar, porque muitos deficientes aqui no Rio não tinham a oportunidade de praticar esporte, de sair de casa para buscar sua independência. Na época, só tinha o Benjamin Constant que não dava conta, tinha muito deficiente querendo fazer esporte, querendo entrar em contato com outros deficientes. Então, fundamos a Urece.

Hoje, atendemos a cerca de 70 atletas, queremos aumentar esse demonstrativo. E a gente, hoje, enxerga o esporte não só como alto rendimento. Claro que queremos tirar um atleta ou outro com alto rendimento, que ganhe medalha para o Brasil, para a associação, mas o principal é ver essas crianças, esses adolescentes, tornarem-se cidadãos, serem independentes, serem autônomos. Porque muitos não são ainda.

Muitos são dependentes de seus pais, de seu responsável, e, na Baixada [fluminense], acontece muito isso, nós vemos crianças de 14, 16 anos totalmente dependentes, com uma mentalidade bem abaixo da sua idade.

Agora, queremos inaugurar uma quadra, acho que vai ser um marco na história do “paraesporte” do Rio de Janeiro, principalmente para a Baixada Fluminense porque eles nunca tiveram essa oportunidade de sair de casa, entrar em contato com ídolos do “paraesporte”, praticar a modalidade e buscar, de uma forma ou de outra, sua independência.

Quais são suas expectativas para os Jogos Paralímpicos do Rio?

Eu acompanhei um processo que, antes, [a iniciativa privada] via que o deficiente ia causar uma imagem ruim da sua marca. Hoje, já mudou. Hoje, o deficiente já é mais envolto. A sociedade, quando tem uma empresa patrocinando, também quer comprar aquele produto. Eu acho que, com a participação da sociedade, o Brasil vai ficar em um lugar bem melhor do que ficou em 2012.

Há um tempo, a iniciativa privada não queria patrocionar. Eles até apoiavam de alguma forma, mas não queriam sua marca vinculada. Hoje em dia, não é mais dessa forma. Eles veem retorno da mídia, da marca investida no paraolímpico, até mesmo porque o paraolímpico pode trazer muito mais medalhas que o olímpico. A posição do Brasil vai ser bem à frente.

Você acredita que os Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro vão deixar um legado social de inclusão dos deficientes no esporte para o Brasil?

Temos sempre que aproveitar essa passagem dos Jogos e, agora, com os Jogos aqui no Rio de Janeiro, não só para divulgar as modalidades, mas principalmente também para focar no nosso potencial. Somos atletas, mas, além de atletas, somos cidadãos. Nós temos capacidades, nós falamos – tem muita gente nessas horas que acha que cego não fala –, estudamos, nos capacitamos, somos pessoas normais. Só não temos, no meu caso, a visão, em outro caso, uma perna.

Então, isso é muito bom porque não é veiculada na mídia a capacidade do deficiente. Quando nos veicularmos na mídia, nós vamos ter agora outros ídolos, em termos do “paraesporte”. É um Daniel Dias, um Ricardinho do futebol, então isso é muito bom para a gente, nós, deficientes, sermos protagonistas e ídolos das pessoas que não têm deficiência. Isso muda muito para gente, virar protagonista.


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